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Arquivo da tag: Censura

ADEUS CENSURA

E TUDO SE RESUME AS LEMBRANÇAS.

Comecinho dos anos 80 e lá está a menininha por volta dos seus dez, doze anos, de aparência meio selvagem devido a irritante cabeleira sempre desgrenhada. Nas pernas, as muitas cicatrizes típicas de um moleque que vive se esfolando por ai. Ela joga bola, solta pipa, é imbatível com as bolinhas de gude (a caixa de sapato pesada não a deixa mentir!), joga bete e junto com os amigos, faz do quarteirão o espaço para brincar de pique-esconde. Inegavelmente ela é um moleque! Ela é a única neta no meio de seis netos, não há uma irmã ou prima próxima para as brincadeiras normais de uma garota. Bonecas? As poucas que teve viraram cobaias para testes de combinação de cores com as canetinhas!

Uma infância tranquila como os saudosistas gostam de falar. Será? Talvez para uma outra criança, mas não para ela. A família não era rica, longe disso! Era a típica família classe C daqueles tempos, que eram outros tempos, bem diferente desses que vivemos hoje. Ela recorda com horror que “naqueles tempos” viviam sob a espada afiada conhecida por INFLAÇÃO GALOPANTE.

Eles eram uma família comum do subúrbio do Rio de Janeiro, lá da zona norte esquecida por deus. Ela lembra da emoção de todos no dia em que o moço da TELERJ foi instalar a linha de telefone, o avô chorou e ela, vendo aquilo e sem saber bem o que era aquela reação do velhinho, chorou junto.

Ela gostava de ler! Foi alfabetizada cedo e tratava de ler tudo o que via pela frente, nada lhe escapava. O tio preferido era estudante universitário e para sua alegria a permitia fuçar em sua estante. Que mundo maravilhoso ela encontrou! Da obra completa de Monteiro Lobato a livros didáticos sobre química, havia de tudo um pouco ali! O hábito da leitura tornou-se constante e a menina-moleque passou a ficar mais em casa, e com isso um novo interesse foi-lhe despertado: os discursos inflamados do avô passaram a soar como algo curioso e digno de atenção.

Ele falava sobre coisas como Comunismo, Esquerda, direitos do povo, condições melhores para todos, justiça e principalmente liberdade de expressão. Censura, ele dizia, é um ato covarde contra o cidadão.

A Ditadura ainda existia, o general Figueiredo era o tiozinho careca que aparecia todo domingo na TVS na SEMANA DO PRESIDENTE. Na Globo, Cid Moreira dava boa noite e seu avô resmungava sobre a cara de pau da emissora, e só voltou a gostar de tv quando a REDE MANCHETE, poucas semanas depois de ir ao ar pela primeira vez, exibiu o seu filme favorito: A Noviça Rebelde. Não por acaso tornou-se também o filme favorito da neta que tanto o admirava.

Esse avô, que era brizolista convicto e um humanista em sua totalidade, que muitas vezes sem ter muito o que por na mesa para a família comer, não negava um prato de arroz com feijão aos filhos dos vizinhos que nada possuíam, que sem condições financeiras adotou uma criança com sérios problemas mentais e o amou incondicionalmente como filho. Esse avô, que não tinha estudo, mal completara a quarta série, pois a vida tratou de fazê-lo trabalhar cedo para ajudar no sustento da casa, mas que fazia questão de trabalhar além da conta para garantir que a neta não passasse nunca pelo mesmo e se tornasse uma “moça estudada”. Foi esse avô que colaborou muito para que aquela menina quando crescesse se tornasse a mulher que se tornou… forte, decidida, segura de si, mas principalmente politizada e engajada em causas sociais.

A menininha cresceu e começou a ver que apesar de gostar tanto de combinar as cores, o mundo não era de fato colorido como ela desejava que fosse…

QUANDO O AMIGO ESQUECE DA AMIZADE.

O tempo é um deus, dizem por ai. Mais de 20 anos se passaram e a menina-moleque agora é uma mulher ‘feita”. Ela tem amigos, poucos, escolhidos a dedo, sabe como é, gato escaldado tem medo de água fria! Entre esses poucos existe um que conquistou sua admiração.

Ele é um cara legal, inteligente, que assim como ela ama História e também gosta de colorir o mundo. Ele se compromete com causas sociais e ajuda muitas pessoas e instituições e não faz alarde disso, só faz um pouquinho na verdade, porque vamos combinar, entre as coisas que ambos têm em comum está o ego que tende a inflar fácil! Mas há algo que não combinam em nada, politicamente eles se posicionam em lados opostos.

Ela cresceu com a ROSA VERMELHA NA MÃO, para mais tarde ser seduzida pelo brilho de uma ÚNICA ESTRELA. Ele por sua vez vem da burguesia paulistana, cresceu bem longe da realidade dela, da realidade de qualquer trabalhador proletariado, enquanto aos 15 anos ele estava fazendo intercâmbio na Inglaterra, ela se via estudando em uma escola pública com um ensino pra lá de decadente. Então, combinaram de nunca falarem sobre política para não ocorrer conflitos e desgastar a amizade.

Se tudo fosse fácil assim! Mas não é, porque as pessoas são pessoas! E bem isso por si só já responde muita coisa!

Enfim, ele tem um blog, um blog focado em um determinado assunto que possuem em comum. De fato o blog o tornou um cara popular e suas palavras são lidas por centenas de pessoas, na maioria mentes jovens susceptíveis a abraçar causas advindas de alguém que admiram. Ela o avisa: Cuidado, ser um líder não é falar o que quer ao bel prazer, lembre-se que palavras têm poder.

Uma tarde eles conversam e ela o questiona:

– O que você tem contra o nosso Presidente?

A resposta a surpreende.

– Ele é um mentiroso, não gosto de mentirosos, você sabia que ele mesmo cortou o próprio dedo? Eu vi a máquina que é igual a que ele alegou ter perdido o dedinho e é impossível alguém ter um dedo cortado por aquilo!

Ele fala com convicção, com paixão, com fúria e indignação. Como debater com alguém que crê cegamente em algo, ela pensa. Melhor manter o acordo como está e não tocar mais no assunto.

Dois dias depois outra surpresa, no blog dele ela dá de cara com um vídeo que a deixa indignada.

Preocupada com os comentários que lê, resolve deixar sua contribuição. Abaixo segue o que escreveu, com alterações para não expôr a outra parte.

“Que triste ver o uso de um vídeo claramente distorcido e tendencioso aqui no seu blog, que por sinal não é nem de longe um blog focado em Política. Se você quer trazer o assunto a tona, faça com a mesma disciplina, responsabilidade e justiça com que você aborda todos os assuntos quase que diários aqui. Mesmo que seja para mostrar o outro lado da moeda, mas que isso seja pautado em fontes sérias e não em “achismos” ou distorções propositais. Se assim desejar fazer, saiba que serei a primeira a te dar todo o apoio!

Criticar por criticar sem ao menos se envolver o mínimo que seja nas questões políticas é fazer o mesmo que os tolos que lêem a Veja sem questionar, usando-a como única fonte de verdade incontestável. Me desculpe, mas esse tipo de postura é típica de filhinho de papai que sente orgulho de dizer que começou a trabalhar cedo… como tradutor de textos em inglês para a Editora Abril.

Você usa como desculpa para a sua indignação, o episódio do dedinho, pois me vejo no direito de dar minha opinião sobre isso.

O MEU Presidente nasceu lá no quinto dos infernos de Pernambuco em uma família paupérrima. Eu não conheço o estado, mas tenho certeza de que é bem diferente de Londres. Criança, ele veio para “sumpaulo” em um pau-de-arara, você sabe o que é encarar uma viagem dessas, meu querido amigo? Porque eu sinceramente não sei e agradeço a deus por isso. Menino ainda, ele teve que trabalhar para ajudar nas despesas de casa. Sabe como é, família grande, são sete irmãos e mais a mãe. Não sabe? Também não sei como deve ser… Alguns anos depois ele foi trabalhar como operário em uma metalúrgica e foi lá que ele perdeu o dedinho. Você afirma que foi proposital. Não posso dizer que sim nem que não, porque não tenho conhecimento além do que chegou a mim, mas gostaria de lembrar algumas coisas que deveriam ser levadas em conta.

Hoje graças a administração desse mesmo homem, temos fartura em nossas vidas, mas naquela época não era assim. Esse homem que você acusa de mentiroso vivia uma vida dura, uma vida que provavelmente nem eu e nem você jamais iremos conhecer na própria pele. Ele tinha que ajudar a por comida no prato da família, você já passou fome meu querido amigo? Digo fome mesmo, não aquela dorzinha no estômago de quem ficou um dia todo sem comer, você sabe o que é isso? Pois pela segunda vez eu agradeço a deus… Por tanto, eu se estivesse no lugar dele sinceramente, não pensaria duas vezes em sacrificar um mero dedinho. Afinal o que é um dedinho perto da pobreza, do descaso e da incerteza quanto ao futuro? Imagino que você preveja a sua velhice tranquila sem que nada venha a lhe faltar… pois é, te aconselho a fazer como eu e agradecer sempre por tudo o que você tem.

E só para completar, duas coisas: O MEU Presidente só iria se envolver com o movimento sindical alguns anos depois e vale lembrar que esse depois é em plena Ditadura Militar. E quanto ao vídeo não vou entrar no mérito da questão porque é óbvio que são dois assuntos diferentes sendo falados ali. Mas gostaria de acrescentar que se você quer saber exatamente como funciona a política do programa bolsa família, saia do aconchego do seu lar e vá até as comunidades que são beneficiadas, tenho certeza que você possui sensibilidade suficiente para constatar que nem tudo que reluz é ouro, ou melhor, que nem tudo que brilha é uma Vênus platinada, plim, plim.

Para finalizar fica aqui a minha dúvida, será que você é justo o suficiente para permitir que esse meu comentário seja lido por todos ou irá moderá-lo???

Beijos dessa amiga que te adora e você bem sabe disso!”

ADEUS CENSURA

Pois é, o comentário foi moderado, a arrogância falou mais alto e permitir que alguém o conteste e em “público” pelo visto não é permitido. Isso é censura da pior espécie.

Aquela menina-moleque que cresceu e se tornou uma mulher atenta ao mundo que a cerca, que aprendeu com aquele avô meio socialista, meio comunista e meio anarquista, é essa aqui que escreve.

Nós mantemos a amizade, respeito à posição dele para que respeite a minha, não concordo nem de longe com a postura no mínimo feia, que deliberadamente adota, mas não faço disso um cabo de guerra que não levará a nada.

Sim, eu fui censurada, mas só até um certo ponto, o que mostra que aquela tão sonhada liberdade de expressão que meu avô falava, hoje está ao alcance de todos. Minhas palavras não foram aceitas naquele espaço claramente anti-democrático mas isso não significou que em nenhum momento não encontrariam outro lugar para se fazerem valer.

Eu cresci, deixei de ser a menina-moleca (nem tanto para ser sincera), e o que hoje vejo é um mundo ainda cinzento, um bocado desordenado, com pouco cacique para muitos índios, mas também vejo que caminhamos para boas mudanças, não será do dia para a noite é claro, mas o mundo aos poucos vem despertando e isso não é utopia, é observação atenta dos fatos históricos.

Por isso eu afirmo que censura é hoje algo que está morrendo pelo simples fato de que não há espaço para ela existir. O mundo tornou-se grande e repleto de possibilidades e ela, a tal dona censura, é uma velha cheirando a mofo que caminha a passos lentos e não consegue estar em todos os lugares ao mesmo tempo.

E quanto a minha mania de colorir, essa não mudou mesmo, digo sempre que quero contribuir para “mudar” o mundo, mas que não vejo mal algum em decorá-lo com cores vibrantes!

Ato público contra o AI5 digital no Rio

ATO PÚBLICO CONTRA O AI-5 DIGITAL NO RJ

* Contra o Projeto de Lei do Senador Azeredo
* Em defesa da liberdade e privacidade na Internet
* Pelo livre compartilhamento e troca de arquivos

O Rio vai dizer um Mega Não!

Dia 01 de julho – 18 horas
Auditório da Associação Brasileira de Imprensa – ABI

R. Araújo Porto Alegre, 71 – Centro – Rio de Janeiro – RJ

ai-5-rio

Apoio:

Deputado Estadual Alessandro Molon
Deputado Federal Jorge Bittar (licenciado)
Deputado Federal Paulo Teixeira

Convocatória:

Associação Brasileira de Centros de Inclusão Digital – ABCID
Associação Brasileira de Imprensa – ABI
Central Única dos Trabalhadores – CUT
Centro de Ação e Comunicação Comunitária – CENACOC
Coletivo Ciberativismo
Coletivo Digital
Coletivo Intervozes
Conselho Regional de Engenharia do RJ – CREA-RJ
MegaNão!
Projeto Software Livre – Brasil
Setorial de TI do PT do RJ
Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro
Sindicato dos Trabalhadores em Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro – Sintufrj
Sindicato dos Servidores das Justiças Federais no Estado do RJ – Sisejufe
União Estadual dos Estudantes – UEE – RJ
União Nacional dos Estudantes – UNE

Na calada da noite…

É na calada da noite que as coisas acontecem…

Coisas que não podem ser feitas em público, acontecem na calada da noite…

É na calada da noite que os limites se ampliam, na certeza da escuridão que tudo oculta…

É na calada da noite que fazemos as coisas que não podemos fazer durante o dia, ou que jamais fariamos de dia…

É na calada da noite que os valores éticos e morais são postos à prova, pois há a certeza da escuridão que tudo oculta…

É na calada da noite que o homem vira lobisomen, que o vampiro aparece e que a sombração acontece…

É na calada da noite que a sociedade está desligada do mundo e ligada no seu lar…

É na escuridão que tudo oculta que acontecem os piores roubos, os piores golpes…

É na calada da noite que o homem vira bandido, que o vampiro suga a sociedade, que o terror começa…

É na calada da noite que o moralista vira hipócrita, que o certo vira torto e o justo vira injusto…

É na calada da noite que as mascaras caem, que a realidade se expoem por trás do véu das más intenções…

É na calada da noite que agem os criminosos, que agem os mal intencionados…

É na escuridão que tudo oculta que que o vigilantismo avança, que mal avança, de dia disfarcado de cordeiro, de noite o lobo apareçe…

Foi na calada da noite que o Azeredo aprovou o seu projeto no Senado , sob o manto da pedofilia, passou disfarçado, seguiu, foi para a Câmara….

Foi na calada da noite que a França aprovou um projeto que pune quem faz download

É na calada da noite que as coisas ruins acontecem, não entendo como tem gente que ainda acredita nas “boas” intenções do projeto de cibercrimes. Pelo menos sabemos que pela regra do 1%, 14,2 milhões de Brasileiros tomaram conhecimento da petição, 1,42 milhões leram a petição e 142 mil à assinaram. Mas mesmo assim, os nossos nobres representantes, ao menos foram eleitos para nos representar, ignoram totalmente esta parcela da população. Ainda bem que eles agem assim, na calada da noite, de forma velada, e agora descarada, usando de todos os artifícios para aprovar um projeto inócuo e inútil, que transformará do dia para a noite milhões de Brasileiros em criminosos. Soltaram o bode no congresso, mais uma estratégia dos agentes da vigilância, não se enganem, estamos vivenciando a implantação do estado vigilantista no mundo, a ditadura do capital, na verdade não estão querendo combater cibercrimes, terrorismo, e nem a pirataria, querem combater a nós mesmos. Quando isto vai acontecer não sabemos, mas sabemos que o mal nunca dorme e ataca na calada da noite…

Deu bode no congresso

Foto de um bode sorrindo

Foto de um bode sorrindo

Quando todos esperávamos por uma proposta sensata do substitutivo que estava sendo elaborado pelo Ministério da Justiça, para o PL 84/99, o PL do Azeredo, fomos surpreendidos por um assustador Frankstein jurídico. Surgiu um pavoroso artigo 22, para quem não conhece, o artigo 22 do PL do Azeredo é aquele que obriga o provedor a manter o registro de conexão por três anos, e outras coisas mais. A proposta do MJ mantem os três anos, mas obriga além deste, o registro de documentos do usuário e não se restringe aos provedores de acesso, obriga também este registro aos provedores de conteúdo. Uma proposta tão estúpida que parece ter sido baseada numa sátira que fizeram para o PL do Azeredo.

Sérgio Amadeu já explicou as razões pela qual o projeto do Azeredo e este maldito substitutivo devem ser esquecidos, e ainda endossou nas palavras de Jomar Silva porque o projeto é inócuo. A verdade é que a proposta do MJ tem grande influência da Policia Federal e da ABIN, para implantação de um estado vigilantista, nos mesmo moldes da época da ditadura, só que potencializado pela tecnologia.

Você deve estar se perguntando o que este risonho bode tem haver com o post, tudo, este bode por incrível que pareça sintetiza o texto, digamos que deu bode no Congresso.

Fazendo uma análise de estratégias, vemos que a proposta do MJ configurou o que é conhecido como triangulação ou efeito decoy, que é algo mais ou menos assim:

“Temos duas variedades de vinho para vender no jantar, um de 9 dolares e outro de 16. Qual você compraria?

Agora, imagine que existe um terceito, e o terceiro custa 34 dolares. Você ficou tentado à comprar a garrafa de 16 dolares agora? A maioria ficaria.”

Shankar Vedantam que escreveu um artigo sobre efeito decoy nas eleições, cita um estudo do Joel Huber, professor de Marketing da Duke Universtity que conclui que a mente humana sempre busca pelas respostas mais simples e usualmente não trabalha com decisões complexas no dia-a-dia. Curioso, mas o efeito decoy ou efeito da dominação assimétrica, se resume no fato de institiva e irracionalmente decidirmos pelo caminho do meio, dentro da lógica que chamamos de relação custo x benefício.

Voltando ao nosso caso, o bode no congresso é a proposta do Ministério da justiça, antes só existiam duas opções, a de não aprovarem ou aprovarem o projeto do Azeredo. Agora aparece o projeto do Ministério da Justiça, o bode, fechando a triangulação. Os efeitos são claramente visíveis, Azeredo e os defensores do projeto se posicionam contra o projeto do MJ, passando a percepção de que “mudaram de time”, o que de certa forma provoca uma sublimação no discurso dos críticos ao projeto de cibercrimes, reduzindo a pressão contra a sua aprovação. Dentro das sutilezas da mente humana, me preocupa muito que paulatinamente as pessoas acabem aceitando o PL do Azeredo como uma alternativa viável, ou “menos pior”, por terem sido vítimas do efeito da dominação assimétrica.

Por fim, nada melhor do que uma boa reflexão no dia em que se completam 45 anos do golpe militar de 1964, afinal o que houve naquela época não difere muito do que temos hoje, um jogo de percepções, dominação, “boas intenções”, implantação do estado policial, vigilantismo e repressão irracional. O golpe de 64 é para ser lembrado como o período da maior vergonha nacional, o período em que o Brasil em 20 anos retrocedeu 50 em termos socio-culturais, e que deixou cicatrizes que até hoje assombram os Brasileiros de bem.

Crédito da Foto: Philip MacKenzie – Stock.Xchng – Smilling Goat

Postado originalmente no Trezentos

A invisibilidade corrompe…

Postado originalmente no Meme de Carbono, este post leva a uma profunda reflexão, servindo de chancela para a proposta feita ja neste blog pelo fim da tipificação penal de injúria, calunia e difamação. Estes tipos penais como o texto do Meme de Carbono fala, so servem como um manto de invisibilidade para os incopetentes endinheirados.

Situação um: O filho de 3 meses de uma amiga estava com fortes cólicas. Ela o levou ao médico que decretou a necessidade de uma cirurgia urgente. Desorientados os pais aceitaram, mas enquanto se deslocavam de carro de um lugar para outro conseguiram se acalmar, buscaram uma segunda opinião e depois uma terceira, todas indicando que a criança tinha apenas cólicas o que se constatou verdadeiro. Não havia qualquer necessidade de cirurgia. A mãe acredita que o médico estava interessado no faturamento da cirurgia.

Situação 2: Uma amiga passa um ano se tratando de alergia em uma certa clínica com um certo médico sem qualquer avanço sensível. Finalmente ela decide ir a uma outra médica que imediatamente percebe que a alergia está ligada ao tipo de esmalte que ela usava.

Situação 3: Depois de vários meses tratando de uma perfuração do tímpano na mesma clínica do caso acima finalmente a paciente decide procurar outro médico que depois de detalhado exame determina que ela nunca teve tímpanos perfurados, receita o remédio correto e a cura em poucos dias.

Situação 4: O rapaz faz um exame de sangue de rotina e fica sabendo que tem Aids. O médico determina que se faça um novo exame só para confirmar. Dá a notícia com a frieza de quem fala de uma verruga. Ao pedir o novo exame o rapaz pergunta à enfermeira se é comum o exame dar falso positivo “Ih! Aqui nunca deu!”. Quando volta para saber o resultado que acaba de sair é informado que somente o médico pode abrir o envelope e que o médico saiu de férias. Por mais de uma semana ele teve aids. Avisou a família e as mulheres com quem teve relações. Perdeu seis quilos por tensão nervosa até que o médico voltou e informou que tinha sido um falso positivo.

Estas são histórias reais que aconteceram com conhecidos meus, mas os nomes dos médicos e clínicas acima não podem ser citados. Eles estão protegidos pela lei.

Sob o pretexto de injúria e difamação o protesto de quem é vítima de um tratamento médico indiferente ou até incompetente pode ser processado e provavelmente perderá como ocorreu no quinto caso onde a paciente reclamou em seu blog com o post que reproduzo na íntegra mais abaixo.

É importante notar que o processo todo se baseou em injúria e difamação e não em calúnia, ou seja, o relato é considerado preciso e real.

A punição da blogueira foi calcada no princípio de que ela não tem o direito de reclamar online de um mau atendimento, mas essa fronteira é muito tenue! Se você não pode reclamar online é melhor não reclamar em nenhum lugar, afinal se você comenta com alguém numa mesa de bar essa pessoa pode, por exemplo, lembrar que um amigo irá na clínica dos casos 2 e 3 no dia seguinte e lhe enviar um rápido email pelo celular. Pronto! Caiu na Internet e logo o nome da clínica e do médico estará circulando silenciosamente por milhares de caixas postais.

A justiça está sendo usada como um manto de invisibilidade que protege maus profissionais assim como o Um Anel de Tolkien protegia e corrompia quem o usasse: a invisibilidade corrompe mais do que o poder.

Todo ser humano deve ter direito de reclamar quando se sentir mal atendido, deve ter o direito de alertar os outros (e não só os amigos) de riscos que eles correm.

A Internet é parte de uma nova cultura, a propósito, ao meu ver ela é o principal fruto de uma nova cultura que leva a democracia e os nossos direitos a novos patamares.

Um mundo onde todos tem possibilidade de se expressar assusta e a reação normal é a demonização da mudança, mas não podemos permitir que o medo da liberdade de expressão e da democracia transforme nossas leis em um instrumento de proteção para o que está errado.

Concluindo…

A mídia tradicional tem recursos e advogados para defender seus direitos, mas os cidadãos ficam acuados sem possibilidade de defesa caso não disponham de recursos o que, infelizmente, é comum. O caso do post reproduzido a seguir é justamente esse: a blogueira perdeu pois não podia pagar os custos para recorrer contra a decisão em primeira instância.

Para evitar que outras pessoas tenham o mesmo problema poderia ser criada uma associação dedicada à defesa da liberdade de expressão com recursos para custear a defesa da liberdade de expressão.

O quinto caso: O post

No domingo passado eu comecei a ter febre e dor no corpo. Na segunda-feira, a febre chegou a 38,9 e fui ao pronto-socorro. A médica me deu alguns remédios (antiinflamatório, anti-histamínico e vitamina C) e me disse para procurar um otorrino caso eu não melhorasse até quarta-feira.

Eu melhorei da febre, mas, com a obra, a garganta inflamou um pouco e ontem de manhã eu estava sem voz, com o nariz totalmente congestionado e, conseqüentemente, com dor de cabeça e sem respirar direito. Como tenho tendência crônica a ter problemas de garganta e sinusite, achei que era melhor dar um pulo no otorrino. Afinal, pago o plano de saúde e devo usá-lo para não jogar dinheiro fora, certo? A esta altura do campeonato, não sei…

O diálogo a seguir aconteceu ontem de manhã, na clínica XXXXXXXXX, que fica na XXXXXX de XXXXXX. O médico era o dr. XXXXXXXXXXX (CRM-RJ XXXXXXX-? – dígito ilegível).

Entrei sem voz no consultório e sussurrei: “Bom dia”.

Médico: “Nossa, você está sem voz! Desde quando está assim?”

Eu: “Hoje de manhã.”

Meu marido disse: “Eu vim de intérprete.” (risinhos gerais)

Ele pegou uma espátula e deu uma olhada (durante aproximadamente 3 segundos) na garganta e concluiu, em tom definitivo: “Ah, é só uma inflamaçãozinha na garganta. É normal nessa época do ano. Tem diabetes ou hipertensão?”
Respondi que não e ele se sentou na mesinha para receitar os remédios. Eu, sem acreditar no que estava acontecendo, virei para o meu marido e fiz gestos, pedindo para ele explicar a situação. meu marido começou:

“Olha, ela teve febre alta na segunda.”

Médico: “Hum-hum.” (Sem levantar o olhar do papel.)

Meu marido: “Ela está com o nariz muito congestionado.”

Médico: “Teve dor de cabeça?”

Meu marido: “Ela disse que está com dor de cabeça desde hoje de manhã.”

Médico: “Hum-hum.” (Com o mesmo desdém.)

Fiz gestos para o meu marido mostrar a ele a receita que recebi na segunda.

Meu marido: “Olha, ela está tomando estes remédios.”

Médico: “Hum-hum. A gente vai fazer um pouco diferente, viu? Você vai tomar Decadron durante 5 dias e depois vai passar para a Loratadina (que eu já estava tomando) durante 10 dias. À noite, vai pingar dois jatos de Flixose antes de dormir. Se tiver dor de cabeça, pode tomar um Tylenol.”

Eu, desesperada, pedi ao meu marido para dizer que eu costumo usar Nasofelin à noite.

Meu marido explicou e o médico disse: “Tudo bem, mas agora você vai usar este. Não vou dar antibiótico por enquanto. Vamos evitar.”

Eu, com cara de abismada, olhei para o meu marido, que disse para o médico: “Olha, ela já esteve no hospital na segunda e a médica disse que, se não melhorasse, era para vir aqui e que era melhor entrar no antibiótico.”

Médico: “É, se tiver febre de novo, você volta aqui e a gente vê o antibiótico.”

Eu, desesperada: “Mas eu não posso parar de trabalhar.”

Médico: “Tá certo. Se piorar, você volta.”

Com isso, quase nos botou porta afora.

Esse diálogo/consulta durou menos de 5 minutos. NÃO ESTOU EXAGERANDO! O médico não quis saber NADA além da “inflamaçãozinha” na garganta suposta por ele. Simplesmente não fez anamnese, então não sabe:

– que tenho tendência crônica a sinusite, laringite e faringite;

– que não tenho amígdalas;

– que eu estava suando frio;

– quais eram meus sinais vitais (pressão arterial e batimentos cardíacos, no mínimo);

– que eu não estava respirando direito.

SURREAL! Como é que o cara me receita um corticóide assim, sem me examinar, sem saber meu histórico médico??? Fiquei muito chocada. Os efeitos colaterais dos corticóides são BEM piores que os efeitos de tomar antibiótico por uma semana.
Resultado: comprei uma caixa de amoxicilina e comecei a tomar por minha conta e risco.

Minha conclusão, depois de algumas desventuras semelhantes, é que médico bom no Rio de Janeiro é uma raridade! De memória, eu salvaria o dr. XXXXXXXXX (excelente ortopedista) e a dr. XXXXXXXX (excelente ginecologista).

E ele é procurador da república!

Publicado em

Toda a regra tem sua exceção. Hoje, o procurador da República e professor de Direito Penal na PUCRS Luciano Feldens, escreve um artigo em Zero Hora sobre a tentativa de criminalização da faixa que sobrevoou o Estádio Olímpico no domingo. Como o artigo passou pelo editorial de Zero Hora, não faço a menor idéia. O importante que o artigo foi surpreendentemente publicado e é muito bom. Trechos:

O eventual desconforto que essa situação possa causar é o preço que pagamos – e um preço bastante módico – por viver em uma sociedade que, sob a perspectiva da difusão de idéias, se pretende livre, aberta, plural, onde os limites à liberdade de expressão devem ser interpretados de forma especialmente restritiva. Desse modo, a palavra a ser utilizada – e que se aplicaria ao caso do avião “flautista” – não é, propriamente, repressão, mas tolerância, pela qual a contraposição de idéias, ou ideais, não se revolve com censura.

(…)

O dissenso é ingrediente absolutamente necessário ao amadurecimento das sociedades democráticas; é por meio dele que a minoria de hoje pode almejar tornar-se, amanhã, maioria. Quando procuramos evitá-lo a qualquer custo, abrimos um perigoso flanco ao proibicionismo, aí, sim, represando inquietudes e frustrações que passam a não ter um canal legítimo de extravasamento. É quando então as rotas alternativas à liberdade de expressão (dentre as quais o apelo à violência) passam a encontrar seu caldo de cultura.

(…)

Sob o mesmo argumento não estará justificado, em nome de um genérico controle da violência, o banimento, a golpes de sentença, da já tradicional “flauta” esportiva pacífica, seja por meio de manifestações aéreas ou terrestres, uma tradição com a qual há muito convivemos no Rio Grande do Sul.

Como gremista, e também presente ao estádio, achei inconsistente o conteúdo da “flauta” colorada; isso não me dá o direito, entretanto, de impedi-la. E como cidadão não reivindico mais do que isso: o direito de poder avaliar o conteúdo da expressão adversária, bem como de me expressar diante dela. O que decididamente não desejo é que um juiz faça isso por mim.

Bem, o artigo está irretocável e recomendo a leitura do artigo.

Tu não tens algo mais importante para fazer?

Publicado em

O assunto do domingo no RS foi uma faixa num avião com o seguinte dizer: “Inter o único campeão de tudo”. Tal faixa sobrevoava o Estádio Olímpico durante o jogo do Grêmio x Atlético Mineiro. Agora, a promotora Sônia Mensch solicitou uma investigação sobre quem contratou o dito avião e a faixa para saber se o pagante da tal parafernália incorreu no art. 39 do Estatuto do Torcedor:

Art. 39. O torcedor que promover tumulto, praticar ou incitar a violência, ou invadir local restrito aos competidores ficará impedido de comparecer às proximidades, bem como a qualquer local em que se realize evento esportivo, pelo prazo de três meses a um ano, de acordo com a gravidade da conduta, sem prejuízo das demais sanções cabíveis.

§ 1o Incorrerá nas mesmas penas o torcedor que promover tumulto, praticar ou incitar a violência num raio de cinco mil metros ao redor do local de realização do evento esportivo.

§ 2o A verificação do mau torcedor deverá ser feita pela sua conduta no evento esportivo ou por Boletins de Ocorrências Policiais lavrados.

§ 3o A apenação se dará por sentença dos juizados especiais criminais e deverá ser provocada pelo Ministério Público, pela polícia judiciária, por qualquer autoridade, pelo mando do evento esportivo ou por qualquer torcedor partícipe, mediante representação.

Para justificar a censura qualquer coisa é válida. Como uma faixa comemorativa ao fato do Inter ter ganhado a Copa Sul-americana pode “incitar a violência”? Esta teoria maluca é aplicável aos jornais que deram tal notícia? Aliás, sra. Mensch, consegues provar relação de nexo causal entre a dita faixa e algum acontecimento violento durante o jogo cientificamente?

Este é mais um típico exemplo de engenharia social promovida por procuradores e promotores que acreditam ter o dever de mudar a sociedade com seus mágicos poderes de dedução de sentimentos humanos baseado na bizarra concepção que seres humanos não são únicos mas fração da “sociedade”.