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ADEUS CENSURA

E TUDO SE RESUME AS LEMBRANÇAS.

Comecinho dos anos 80 e lá está a menininha por volta dos seus dez, doze anos, de aparência meio selvagem devido a irritante cabeleira sempre desgrenhada. Nas pernas, as muitas cicatrizes típicas de um moleque que vive se esfolando por ai. Ela joga bola, solta pipa, é imbatível com as bolinhas de gude (a caixa de sapato pesada não a deixa mentir!), joga bete e junto com os amigos, faz do quarteirão o espaço para brincar de pique-esconde. Inegavelmente ela é um moleque! Ela é a única neta no meio de seis netos, não há uma irmã ou prima próxima para as brincadeiras normais de uma garota. Bonecas? As poucas que teve viraram cobaias para testes de combinação de cores com as canetinhas!

Uma infância tranquila como os saudosistas gostam de falar. Será? Talvez para uma outra criança, mas não para ela. A família não era rica, longe disso! Era a típica família classe C daqueles tempos, que eram outros tempos, bem diferente desses que vivemos hoje. Ela recorda com horror que “naqueles tempos” viviam sob a espada afiada conhecida por INFLAÇÃO GALOPANTE.

Eles eram uma família comum do subúrbio do Rio de Janeiro, lá da zona norte esquecida por deus. Ela lembra da emoção de todos no dia em que o moço da TELERJ foi instalar a linha de telefone, o avô chorou e ela, vendo aquilo e sem saber bem o que era aquela reação do velhinho, chorou junto.

Ela gostava de ler! Foi alfabetizada cedo e tratava de ler tudo o que via pela frente, nada lhe escapava. O tio preferido era estudante universitário e para sua alegria a permitia fuçar em sua estante. Que mundo maravilhoso ela encontrou! Da obra completa de Monteiro Lobato a livros didáticos sobre química, havia de tudo um pouco ali! O hábito da leitura tornou-se constante e a menina-moleque passou a ficar mais em casa, e com isso um novo interesse foi-lhe despertado: os discursos inflamados do avô passaram a soar como algo curioso e digno de atenção.

Ele falava sobre coisas como Comunismo, Esquerda, direitos do povo, condições melhores para todos, justiça e principalmente liberdade de expressão. Censura, ele dizia, é um ato covarde contra o cidadão.

A Ditadura ainda existia, o general Figueiredo era o tiozinho careca que aparecia todo domingo na TVS na SEMANA DO PRESIDENTE. Na Globo, Cid Moreira dava boa noite e seu avô resmungava sobre a cara de pau da emissora, e só voltou a gostar de tv quando a REDE MANCHETE, poucas semanas depois de ir ao ar pela primeira vez, exibiu o seu filme favorito: A Noviça Rebelde. Não por acaso tornou-se também o filme favorito da neta que tanto o admirava.

Esse avô, que era brizolista convicto e um humanista em sua totalidade, que muitas vezes sem ter muito o que por na mesa para a família comer, não negava um prato de arroz com feijão aos filhos dos vizinhos que nada possuíam, que sem condições financeiras adotou uma criança com sérios problemas mentais e o amou incondicionalmente como filho. Esse avô, que não tinha estudo, mal completara a quarta série, pois a vida tratou de fazê-lo trabalhar cedo para ajudar no sustento da casa, mas que fazia questão de trabalhar além da conta para garantir que a neta não passasse nunca pelo mesmo e se tornasse uma “moça estudada”. Foi esse avô que colaborou muito para que aquela menina quando crescesse se tornasse a mulher que se tornou… forte, decidida, segura de si, mas principalmente politizada e engajada em causas sociais.

A menininha cresceu e começou a ver que apesar de gostar tanto de combinar as cores, o mundo não era de fato colorido como ela desejava que fosse…

QUANDO O AMIGO ESQUECE DA AMIZADE.

O tempo é um deus, dizem por ai. Mais de 20 anos se passaram e a menina-moleque agora é uma mulher ‘feita”. Ela tem amigos, poucos, escolhidos a dedo, sabe como é, gato escaldado tem medo de água fria! Entre esses poucos existe um que conquistou sua admiração.

Ele é um cara legal, inteligente, que assim como ela ama História e também gosta de colorir o mundo. Ele se compromete com causas sociais e ajuda muitas pessoas e instituições e não faz alarde disso, só faz um pouquinho na verdade, porque vamos combinar, entre as coisas que ambos têm em comum está o ego que tende a inflar fácil! Mas há algo que não combinam em nada, politicamente eles se posicionam em lados opostos.

Ela cresceu com a ROSA VERMELHA NA MÃO, para mais tarde ser seduzida pelo brilho de uma ÚNICA ESTRELA. Ele por sua vez vem da burguesia paulistana, cresceu bem longe da realidade dela, da realidade de qualquer trabalhador proletariado, enquanto aos 15 anos ele estava fazendo intercâmbio na Inglaterra, ela se via estudando em uma escola pública com um ensino pra lá de decadente. Então, combinaram de nunca falarem sobre política para não ocorrer conflitos e desgastar a amizade.

Se tudo fosse fácil assim! Mas não é, porque as pessoas são pessoas! E bem isso por si só já responde muita coisa!

Enfim, ele tem um blog, um blog focado em um determinado assunto que possuem em comum. De fato o blog o tornou um cara popular e suas palavras são lidas por centenas de pessoas, na maioria mentes jovens susceptíveis a abraçar causas advindas de alguém que admiram. Ela o avisa: Cuidado, ser um líder não é falar o que quer ao bel prazer, lembre-se que palavras têm poder.

Uma tarde eles conversam e ela o questiona:

– O que você tem contra o nosso Presidente?

A resposta a surpreende.

– Ele é um mentiroso, não gosto de mentirosos, você sabia que ele mesmo cortou o próprio dedo? Eu vi a máquina que é igual a que ele alegou ter perdido o dedinho e é impossível alguém ter um dedo cortado por aquilo!

Ele fala com convicção, com paixão, com fúria e indignação. Como debater com alguém que crê cegamente em algo, ela pensa. Melhor manter o acordo como está e não tocar mais no assunto.

Dois dias depois outra surpresa, no blog dele ela dá de cara com um vídeo que a deixa indignada.

Preocupada com os comentários que lê, resolve deixar sua contribuição. Abaixo segue o que escreveu, com alterações para não expôr a outra parte.

“Que triste ver o uso de um vídeo claramente distorcido e tendencioso aqui no seu blog, que por sinal não é nem de longe um blog focado em Política. Se você quer trazer o assunto a tona, faça com a mesma disciplina, responsabilidade e justiça com que você aborda todos os assuntos quase que diários aqui. Mesmo que seja para mostrar o outro lado da moeda, mas que isso seja pautado em fontes sérias e não em “achismos” ou distorções propositais. Se assim desejar fazer, saiba que serei a primeira a te dar todo o apoio!

Criticar por criticar sem ao menos se envolver o mínimo que seja nas questões políticas é fazer o mesmo que os tolos que lêem a Veja sem questionar, usando-a como única fonte de verdade incontestável. Me desculpe, mas esse tipo de postura é típica de filhinho de papai que sente orgulho de dizer que começou a trabalhar cedo… como tradutor de textos em inglês para a Editora Abril.

Você usa como desculpa para a sua indignação, o episódio do dedinho, pois me vejo no direito de dar minha opinião sobre isso.

O MEU Presidente nasceu lá no quinto dos infernos de Pernambuco em uma família paupérrima. Eu não conheço o estado, mas tenho certeza de que é bem diferente de Londres. Criança, ele veio para “sumpaulo” em um pau-de-arara, você sabe o que é encarar uma viagem dessas, meu querido amigo? Porque eu sinceramente não sei e agradeço a deus por isso. Menino ainda, ele teve que trabalhar para ajudar nas despesas de casa. Sabe como é, família grande, são sete irmãos e mais a mãe. Não sabe? Também não sei como deve ser… Alguns anos depois ele foi trabalhar como operário em uma metalúrgica e foi lá que ele perdeu o dedinho. Você afirma que foi proposital. Não posso dizer que sim nem que não, porque não tenho conhecimento além do que chegou a mim, mas gostaria de lembrar algumas coisas que deveriam ser levadas em conta.

Hoje graças a administração desse mesmo homem, temos fartura em nossas vidas, mas naquela época não era assim. Esse homem que você acusa de mentiroso vivia uma vida dura, uma vida que provavelmente nem eu e nem você jamais iremos conhecer na própria pele. Ele tinha que ajudar a por comida no prato da família, você já passou fome meu querido amigo? Digo fome mesmo, não aquela dorzinha no estômago de quem ficou um dia todo sem comer, você sabe o que é isso? Pois pela segunda vez eu agradeço a deus… Por tanto, eu se estivesse no lugar dele sinceramente, não pensaria duas vezes em sacrificar um mero dedinho. Afinal o que é um dedinho perto da pobreza, do descaso e da incerteza quanto ao futuro? Imagino que você preveja a sua velhice tranquila sem que nada venha a lhe faltar… pois é, te aconselho a fazer como eu e agradecer sempre por tudo o que você tem.

E só para completar, duas coisas: O MEU Presidente só iria se envolver com o movimento sindical alguns anos depois e vale lembrar que esse depois é em plena Ditadura Militar. E quanto ao vídeo não vou entrar no mérito da questão porque é óbvio que são dois assuntos diferentes sendo falados ali. Mas gostaria de acrescentar que se você quer saber exatamente como funciona a política do programa bolsa família, saia do aconchego do seu lar e vá até as comunidades que são beneficiadas, tenho certeza que você possui sensibilidade suficiente para constatar que nem tudo que reluz é ouro, ou melhor, que nem tudo que brilha é uma Vênus platinada, plim, plim.

Para finalizar fica aqui a minha dúvida, será que você é justo o suficiente para permitir que esse meu comentário seja lido por todos ou irá moderá-lo???

Beijos dessa amiga que te adora e você bem sabe disso!”

ADEUS CENSURA

Pois é, o comentário foi moderado, a arrogância falou mais alto e permitir que alguém o conteste e em “público” pelo visto não é permitido. Isso é censura da pior espécie.

Aquela menina-moleque que cresceu e se tornou uma mulher atenta ao mundo que a cerca, que aprendeu com aquele avô meio socialista, meio comunista e meio anarquista, é essa aqui que escreve.

Nós mantemos a amizade, respeito à posição dele para que respeite a minha, não concordo nem de longe com a postura no mínimo feia, que deliberadamente adota, mas não faço disso um cabo de guerra que não levará a nada.

Sim, eu fui censurada, mas só até um certo ponto, o que mostra que aquela tão sonhada liberdade de expressão que meu avô falava, hoje está ao alcance de todos. Minhas palavras não foram aceitas naquele espaço claramente anti-democrático mas isso não significou que em nenhum momento não encontrariam outro lugar para se fazerem valer.

Eu cresci, deixei de ser a menina-moleca (nem tanto para ser sincera), e o que hoje vejo é um mundo ainda cinzento, um bocado desordenado, com pouco cacique para muitos índios, mas também vejo que caminhamos para boas mudanças, não será do dia para a noite é claro, mas o mundo aos poucos vem despertando e isso não é utopia, é observação atenta dos fatos históricos.

Por isso eu afirmo que censura é hoje algo que está morrendo pelo simples fato de que não há espaço para ela existir. O mundo tornou-se grande e repleto de possibilidades e ela, a tal dona censura, é uma velha cheirando a mofo que caminha a passos lentos e não consegue estar em todos os lugares ao mesmo tempo.

E quanto a minha mania de colorir, essa não mudou mesmo, digo sempre que quero contribuir para “mudar” o mundo, mas que não vejo mal algum em decorá-lo com cores vibrantes!

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  1. José Jorge de Moura Senna

    Cale a boca que eu estou mandando!
    Andei pesquisando os casos flagrantes de censura na internet; vislumbrei claramente que não faltam tentativas de intimidar quem denuncia. Os políticos, já era de se esperar, mas agora as empresas estão fazendo o mesmo. Na terra do Pão de Queijo, Minas Gerais, tem um caso clássico e que já deveria ser melhor investigado pelo cansado jornalista Maurício Azêdo, Presidente da ABI. O colega dele, jornalista Carlos Henrique Mascarenhas Pires, que é autor do blog Irregular.com.br, denunciou aberrações (palavras do jornalista) contra a Rede de Hotéis Bristol, que tem unidades em Minas Gerais, Goiás e é do Espírito Santo. Segundo o jornalista, ele próprio foi vítima de “atrocidades” cometidas pelo hotel Bristol Airport Confins, que fica em Lagoa Santa. Ainda por palavras do jornalista, ele foi tratado com descriminação e até lhe negaram acesso à um sanitário da área comum a todos.
    Insatisfeitos com o artigo, o Bristol mais outra empresa do grupo, se associaram a três funcionárias e sapecaram seis ações contra Carlos Henrique em varas diferentes entre as cidades de Lagoa Santa e Belo Horizonte.
    Cinco juízes entenderam que o jornalista mineiro é INOCENTE, mas um deles, o sexto juíz, que atende pelo nome de JAUBERT CARNEIRO JAQUES, mandou que o jornalista retirasse o texto da internet. Está mais do que claro que o magistrado MANDOU CARLOS HENRIQUE CALAR A BOCA! Caso ele não retirasse, receberia uma multa diária de R$ 5 mil.
    Cinco mil reais por dia caso ele insistisse em afirmar que quis defecar e os funcionários do Bristol não lhe deram as chaves de um sanitário.
    Pode ser mentira do jornalista? Claro que pode! Mas o Bristol NÃO DESMENTIU Carlos Henrique em nenhuma de suas seis defesas; nem mesmo na defesa que tramita na Vara em que trabalha o juiz Jaubert; ainda assim, o jornalista vive este pesadelo.
    Numa outra decisão, envolvendo a Brasil Telecom no Rio de Janeiro, a juíza Flávia de Almeida Viveiros de Castro NEGOU LIMINAR para que retirassem uma página cujo título é “EU ODEIO A BRASIL TELECOM”. Segundo a magistrada, determinar a retirada do ar de páginas com tal conteúdo representa a utilização do Poder Judiciário como instrumento de censura, o que é inadmissível no Estado Democrático de Direito”.
    Por quê será que um juiz pensa com a cabeça e outros pensam com o bolso?
    Agora virou moda e os juízes não escolhem as vítimas de censura; vários jornais estão impedidos de publicar fatos contra a família Sarney.
    Até quando esta bagunça vai perdurar?
    Eu sou totalmente favorável que se mande retirar textos difamatórios que não contenham a indicação do autor; o restante, têm que ficar para que pessoas saibam quem são as mazelas do Brasil.
    Quando você pensar em contratar os serviços da Brasil Telecom ou pretender se hospedar em um dos hotéis da Rede Bristol, cuidado! Muito cuidado com o que falam ou com o que escrevem; eles podem no mínimo processar você; no máximo, podem mandar te matar!

    Jorge Senna

    Responder
  2. Stanley Burburinho

    Excelente! Gostei muito. Parabéns. Mas, o avô continua aqui no Rio?

    Responder

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