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E vamos queimar livros! Parte 2

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Pois eu li a liminar do processo contra Jonas Abib (1957502-1/2008), o padre que está tendo um livro queimado graças a uma ação judicial. O juiz Schmitt solta uma afirmação bastante contraditória, ao dizer que

A proteção a liberdade de consciência e de crença, bem como do livre exercício dos cultos religiosos, encontra-se alçado a nível constitucional, assim como a impossibilidade de alguém ser privado de direitos por motivo de fé ou de ideologia filosófica ou política, consoante encartado nos incisos VI e VII, do artigo 5º, da CF/88.

Como assim? Se é constitucionalmente impossível privar alguem devido a ideologia ou fé, como então o juiz manda

[O] imediato recolhimento, em todas as livrarias e bancas de jornal e revistas localizadas nesta Capital, dos exemplares postos a venda da obra “Sim, Sim! Não, Não! Reflexões de cura e libertação”, de autoria do acusado e publicada pela Editora Canção Nova.

Ora, para mim isto é impedir uma pessoa de se expressar livremente devido ao conteúdo da mensagem, que nada mais do que a exteriorização da “fé ou de ideologia filosófica ou política”. Além disso, a liminar contém um outro absurdo:

O perigo da demora está evidente, uma vez que a disseminação das idéias defendidas pelo acusado deve ser provisoriamente cessada, até que o mérito do caso em tela seja resolvido, como forma de evitar possíveis danos irreparáveis ao patrimônio cultural e à dignidade da pessoa humana (sic), sobretudo daqueles que tem sua matriz religiosa nas religiões atacadas pelo conteúdo do livro em debate. Ademais, o número trazido de vendagem da obra, igualmente, reclama a adoção desta medida, como forma de buscar se evitar um maior acirramento de conflitos étnico-religiosos.

“Maior acirramento de conflitos étnicos-religiosos”? Desde quando o livro estaria causado conflitos étnicos-religiosos? Aliás, desde quando uma religião tem a ver com a etnia de alguém? Salvo melhor juízo, o objetivo de qualquer religião é arregimentar o maior número possível de seres humano, e não de pessoas humanas (sic) algo que só existe no gabinete de Schmitt, se não toda a humanidade.

Agora, comentários sobre a ação em si. Uma das características da religião é a crença em dogmas, ou seja, verdades absolutas que não podem ser contestadas e que são dadas pelo ente superior de tal religião. Um dos dogmas da Igreja Católica é a crença num único Deus. Então, qualquer religião que acredite em mais de uma divindade, como é o caso das tais “religiões afro-brasileiras”, está em desacordo com a verdade absoluta em que os católicos, como este que vos bloga, acredita. Além disso, é importante notar que a Igreja Católica tem outro dogma, o Extra Ecclesiam nulla salus, que diz que não há salvação fora da Igreja Católica, e uma pessoa que não pode ser salva irá para o inferno, e quem manda no inferno é o Dito Cujo.

Ora, se as religiões são baseadas em dogmas, então não há de se falar em discriminação, pois na visão da Igreja Católica, ou mesmo das tais “religiões afro-brasileiras” que o juiz não especifica quais são, qualquer outra religião está em desacordo com a verdade absoluta, assim como qualquer lei que protega o reconhecimento de tais igrejas, pois aí o estado estaria patrocinando um ataque ao Bem, ou seja, alinhado-se ao Mal.

Importante notar que a publicização de qualquer pensamento por mais ofensivo que este pode ser a uma pessoa, não impede a mesma de continuar em sua fé ou ideologia. Existe uma grande diferença em se expressar e impedir alguém de professar sua fé. Desta forma, é perfeitamente legítimo ao padre Abib, ou a qualquer outro sacerdote de outras religiões, faça críticas aos aspectos ideológicos das outras religiões, para arregimentar mais fiéis para a fé que acredita ser a portadora da verdade absoluta. O que seria bem diferente do padre Abib estar na frente de uma porta de um local de culto de uma religião qualquer armado com um rifle M-16, ameaçando os fiéis. Aí sim, e somente aí, haveria um crime.

O que esta ação judicial, cuja “vítima” é o Centro Espírita Cavaleiros da Luz – Cidade da Luz (como se uma instituição tivesse consciência para poder ser ofendida) e que cujo diretor não é novato no uso do Ministério Público para processar interesses católicos, é impedir um ser humano de expressar aquilo que é parte constituinte da sua consciência, impedindo-o de existir, pois uma pessoa que não pode se expressar não existe naquele mundo dos códigos onde ele está inserido.

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  1. Não tem perdão. Quem assiste, mesmo que eventualmente às transmissões da tal Canção Nova, vê claramente um festival de intolerância, radicalismo e disseminação de preconceito contra todas as religiões que não rezem pela cartilha da patota de lá. Essa tal comunidade prega abertamente a guerra santa. Fico horrorizada com a virulência com que a maioria dos padres e diáconos atacam as religiões, sem o mennor respeito.

    Responder
    • Guerra Santa não minha filha, isso so teria acontecido se Jesus descesce da Cruz e se o permitisse. E como você estâ chamando de ´´patota de lá´´vc esta chamando um representante ´´In Crtisti´´ ,portanto vc esta chingando ao proprio representante de Cristo, Deus tenha misericórdia de vc….fica com Deus….só o tempo dirá..

      Responder
    • vc deve assistir bastante a CN pra falar disso heim? kkkk.

      Responder
  2. Infelizmente, a melhor maneira de combater a intolerância não é a censura. Que tal permitir que o livro seja vendido e publicar um outro, melhor, com uma crítica inteligente ao primeiro?
    Todos os que apoiam a decisão do juiz aparentemente possuem um conhecimento maior sobre o autor do livro censurado, sobre sua seita e sua agenda secreta. Por que não utilizar o mesmo meio para publicar a sua idéia, sua explicação? Escreva um livro denunciando o que há de errado.
    Não use uma ferramenta injusta, corrupta e absurda, como a censura.

    Abs

    Responder
  3. Pingback: Padre Adib e nosso pé na censura | BlogueIsso!

  4. Pingback: E vamos queimar livros! Parte 5 « Censura não !

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